Extensão Universitária

O QUE É EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA? – A FILHA POBRE DO TRIPÉ UNIVERSITÁRIO PARTE I No ratings yet.

“Querida Academia,
do alto dos seus títulos
daí de onde você vê
a universidade é pra quê?
pra caber quem?
dentro da sua sala
você se esconde
pra não ver lá fora
ou pra quem tá lá fora não te ver?
o conhecimento que você produz
é pro povo ou pro CNPq?
pra sociedade ou só pra enfeitar lattes?
se quem tá dentro
não vê os muros em volta
quem vê de fora
não enxerga nada além da muralha”

Os trechos de poema fazem parte do discurso feito durante a cerimônia de graduação do curso de ciências políticas da Universidade de Brasília pelo estudante Marcelo Caetano Zoby no dia 18 de fevereiro deste ano. Os questionamentos elencados pelo cientista político flagram o debate do papel social da universidade e o projeto que vem sendo construído por essa instituição.

No entanto, longe de ser novo, esse debate data do século passado na Europa com o surgimento de universidades populares que objetivavam disseminar conceitos técnicos produzidos pela academia. Tal projeto encontrou sua limitação na não valorização da experiência da forma de vida da classe trabalhadora por uma academia que se colocava em posição superior.

Contudo, foi na Inglaterra, que a partir dessas experiências surgiram as bases para os primeiros conceitos de extensão universitária. Seria a extensão o meio pelo qual o conhecimento seria sistematicamente repassado à classe trabalhadora.

Em paralelo, nos Estados Unidos, a extensão universitária se configurou como prestação de serviços e oportunidade para a capacitação prática de estudantes vinculada a uma lógica mercadológica.

O estabelecimento de uma relação entre extensão universitária e o projeto de sociedade se deu pela primeira vez na América Latina, com destaque para o Movimento de Córdoba de 1918. A relação entre a universidade e sociedade era enfatizada e sua materialização se daria através da extensão universitária. Para esse movimento, a extensão universitária era definida como “fortalecimiento de la función social de la Universidad. Proyección al pueblo de la cultura universitária y preocupación por los problemas nacionales”. A extensão universitária foi colocada como uma tentativa de participação ativa dos segmentos universitários nas lutas sociais. Isso dialogava com um contexto histórico de imperialismo e luta contra as ditaduras na América Latina. Foi o mesmo conceito de extensão universitária que seria desenvolvido pela União Nacional dos Estudantes (UNE) no Brasil. No congresso da UNE, na Bahia em 1961, a reforma universitária implicaria assumir um compromisso com as classes trabalhadoras e com o povo. A universidade teria um papel de “trincheira de defesa das reivindicações populares, através da atuação política de grupos universitários na defesa de reivindicações operárias, participando de gestão junto aos poderes públicos e possibilitando cobertura aos movimentos de massa”. Por fim, a extensão universitária seria o meio através do qual ocorreria a conscientização das massas populares, despertando-as para seus direitos.

Durante a Ditadura Militar a extensão universitária foi transformada em projetos desenvolvimentistas de caráter puramente assistencialista de populações carentes sob égide do lema “integrar para não entregar”, sendo que um dos objetivos seria cooptar indivíduos do movimento estudantil. O maior exemplo seria o projeto Rondon que entre 1967 e 1989 envolveu aproximadamente 370 mil estudantes e professores de todas as regiões do país. Aliada à perseguição política direta do movimento estudantil, a ditadura militar representou a dissolução da luta por uma universidade democrática.

Em 1985, o Ministério da Educação estabelece a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, no qual essa seria definida como a como difusão de conhecimentos e a manutenção da prestação de serviços à população. Foi a criação do tripé universitário no Brasil.

Em 1994, no XIII Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas do Nordeste, extensão foi conceituada como “um nascedouro e desaguadouro da atividade acadêmica, da qual a pesquisa seria o desenvolvimento das respostas, e o ensino o envolvimento dos estudantes em todas as etapas desse processo “. No entanto, tal conceito coloca a extensão como a porta onde a população bate reivindicando como cliente. Isso remete muito a alegoria da estrada que seria usada pela comunidade acadêmica para despejar seu produto.

Mesmo com a evolução do conceito para uma estrada de mão dupla, na qual existe um feedback da população, o mesmo seria usado pela academia como subsídio para suas pesquisas e suas reflexões. Desse modo, parte-se de um pressuposto de que universidade seria o espaço de excelência para reflexão, excluindo como o impacto da extensão universitária avança o debate nas comunidades. As reflexões tiradas pela comunidade a partir das atividades extensionistas eram tratadas pela academia como secundarias ao aprofundamento do debate ocorrido entre os muros da universidade.

Além disso, tal alegoria da estrada também remete a ideia de uma universidade necessariamente descolada da comunidade, sendo dois ambientes separados e para se tramitar entre eles seria necessário transpor alguma forma de barreira.

Melo Neto em 1994 define extensão universitária como “trabalho social sobre a realidade objetiva, gerado de um produto em parceria com a comunidade, a esta comunidade deverá retornar o resultado dessa atividade de extensão”.

A reflexão a ser tirada sobre esse resgate histórico: “quantas extensões desenvolvidas pelos cursos de medicina no Brasil satisfazem? Quantas trazem um benefício real para as comunidades que utilizam como interlocutora?”.

“Você escreve
artigo, livro, capítulo
resumo, paper, ensaio
fala da gente
sem nem lembrar
de olhar no olho da nossa gente
alcança seus índices de produtividade
no dia seguinte,
não sabe nossa cara,
nosso nome, desconhece nossa identidade
nossa cor é objeto de pesquisa
nosso sexo, etnografia
nossas casas são seu campo
e seu olhar
branco, macho, eurocentrado
justifica-se com metodologia

na sua nota da capes
o que conta mais:
seus pontos ou nossa voz?
sua tese ou nossa história?
o que vale mais:
suas oito páginas de referência
ou a nossa ancestral experiência?”
Marcelo Caetano Zoby

Ana Azevedo Beltrão
Estudante de Medicina da Universidade Estadual do Rio de Janeiro
Coordenadora de Extensão Universitária – 2016

Referências:
MELO NETO, José Francisco de. Extensão universitária – em busca de outra hegemonia. Revista de Extensão (PRAC/UFPB), João Pessoa: Editora da Universidade Federal da Paraíba, 1996.

MELO NETO, José Francisco de. Hegemonia e extensão. Escola de Formação Quilombo dos Palmares – EQUIP. Recife, PE, l994.

MELO NETO, José Francisco de. Extensão Universitária: diálogos populares. João Pessoa: UFPB 2002.

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