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MULHERES NA CIÊNCIA: MARCO DE RESISTÊNCIA E LUTA No ratings yet.

Oito de março é o dia internacional da mulher e nós, mulheres da Coordenação Científica (CoCien), temos muito a contribuir para essa data memorável desde 1957. Falar sobre mulheres e feminismo na ciência é uma tarefa bastante extensa e complexa, pois estamos lidando com um grupo de indivíduos marginalizado dentro da hegemonia da produção científica ocidental. Entretanto, ressalta-se que a dominação e exploração da mulher não surgem no capitalismo. Seu início ocorreu em conjunto com o surgimento da propriedade privada e que depois foi apropriada por um sistema que aproveita dessa condição social prévia para o seu aprofundamento e contínua reprodução. Logo, devemos entender o sistema patriarcal como originário da exclusão feminina em todos os âmbitos, incluindo todo acesso ao conhecimento e, por conseguinte, da ciência. Nesse sentido, observando o contexto histórico de nossa sociedade, percebe-se que são vários os fatores que reafirmam a hegemonia machista nos ambientes científicos: o não reconhecimento de mulheres cientistas e de suas produções e a dificuldade de uma mulher entrar e/ou se manter no meio científico, o que resulta no baixo número de mulheres visíveis na ciência.

Nessa análise, destaca-se a palavra “visível”, pois as mulheres sempre estiveram presentes na produção de conhecimento das sociedades. A invisibilidade surge por diversas ações que se cabe pontuar: pelo não reconhecimento da contribuição feminina para o desenvolvimento científico (Madame de Châtelet, Rosalind Franklin, Emmy Noether, Lise Meitner, Vasilyevna Kovalevsky, Aglaonike, Hipatia etc); pelo ocultamento sistemático de sua atuação devido à política de patentes (invenções poderiam ser registradas apenas em nomes masculinos); pelo trabalho “secundário” desenvolvido pelas mulheres (compilação de dados, catalogar as espécies de plantas, ilustrar etc); pela apropriação de conhecimentos que já foram ditos como femininos pelos homens (agricultura, medicina, artes, culinária, estética e tantos outros). Por esses fatores, muitas feministas defendem uma reescrita da história da ciência. Além de todos esses motivos, é importante ressaltar que até o final do século XIX existiam várias barreiras institucionais que proibiam a entrada de mulheres nas universidades e sociedades científicas. Com isso, a ciência moderna exclui as mulheres da profissionalização na área, delimitando funções de menor prestígio para este grupo de pessoas.

Atualmente, não se pode mais falar de uma exclusão explícita, apenas de elementos implícitos ou informais, dos quais podem ser destacados dois: territorial, o que determina quais são as áreas “femininas”, e elemento hierárquico, caracterizado por cientistas brilhantes mantidas em níveis inferiores da hierarquia da comunidade científica, numa espécie de “teto de vidro” intransponível.

Infelizmente, mesmo com uma “re-escritura” da história da ciência e a entrada de mulheres nas universidades, o que se observa, ainda e não muito distante da classe estudantil, é o baixo o número de mulheres neste ramo. Ora… Se não é mais proibido o acesso às universidades, por que há tão poucas mulheres na ciência? A resposta encontra-se na estrutura social na qual a mulher está inserida. Em outras palavras, cabe questionar se as mulheres chegam à educação superior em iguais condições com os homens. Questão que, em uma rápida análise, permite chegar a conclusão que a resposta é não, pois o processo de socialização da mulher a distancia da carreira científica.

Sobre isso, primeiramente, podemos pensar nos estereótipos sexuais, presentes desde o nascimento. Aos homens são associadas características de dominação, independência, frieza e objetividade, enquanto que às mulheres são associadas características como irracionalidade, passividade, dependência, ternura, emotividade e subjetividade. Esses elementos “femininos” opostos aos “masculinos”, são subvalorizados e constituem um obstáculo para prosseguimento de uma carreira científica, já que as qualidades necessárias para fazer a ciência são as “masculinas”. Na medicina, isso também é muito perceptível, já que são várias as hierarquias que ditam que lugar de mulher não é em pesquisas de neurociência, novas descobertas em técnicas cirúrgicas e tantas outras.

Outro ponto importante, dentro desta perspectiva, seria pensar os campos designados à mulher. Ela desde criança é incentivada apenas a se casar e ter filhos, sendo qualquer alternativa de vida vista como “errônea” ou “desperdício”. A casa e família passam, então, a ser sua máxima responsabilidade e maior sinal de conquista social. Espera-se, dessa maneira, que elas se dediquem às tarefas domésticas diminuindo o tempo que elas poderiam se dedicar ao desenvolvimento científico. Mesmo aquelas mulheres que conseguem ultrapassar essas barreiras de socialização e entram na universidade, a escolha de cursos acaba sendo já socialmente determinada, com a maioria das mulheres buscando cursos nas áreas de humanas e relacionadas a cuidados.

Por tantas razões, a inclusão das mulheres no mesmo ambiente de educação e produção científica é vista por muitos como uma solução para essas desigualdades e opressões. O que se observa, no entanto, é que esta não é uma medida completamente eficaz, pois a cultura machista ainda permeia esses ambientes de diversas formas. Uma delas é o “currículo oculto”, cujo nome caracteriza que esta “inclusão” apenas universaliza os modelos masculinos e perpetua os esteriótipos sexuais já existentes, desvalorizando ou ocultando o feminino por meio dos mais diversos mecanismos. Além disso, vê-se que a maior atenção e o maior incentivo dados aos alunos homens, a invisibilidade das mulheres nos textos sobre ciência, a criação de tecnologias focadas no “ambiente masculino” e em suas necessidades, e os discursos sexistas da ciência, são alguns dos exemplos de como essa diferença se estabelece no ambiente acadêmico.

Por causa dessas situações, ressalta-se que uma real integração das mulheres em campos que lhes haviam sido vedados implica um claro compromisso com a transformação da educação, prática e gestão da ciência e da tecnologia. Um olhar para o futuro, o qual é o objetivo principal deste ramo. Dentro de todo este contexto, ainda conseguimos resistir e existir. Várias são as mulheres que conseguiram ultrapassar todas essas barreiras e ajudam a construir o nosso conhecimento. Dedicamos este dia 8 de março a todas as mulheres, em especial às que lutaram para podermos entrar na ciência institucional; àquelas que conseguiram ser cientistas; àquelas que desenvolveram conhecimentos apropriados e secundários e àquelas que, ainda hoje, estão lutando em seus meios para terem seus trabalhos reconhecidos. Sem a vida e o exemplo de vocês, essa pauta não seria uma discussão tão veemente para as mulheres do movimento estudantil discutir, hoje, seus papéis, suas militâncias e sua luta.

PROGRAMA DE INCENTIVO A PARTICIPACÃO DAS MULHERES NA CIÊNCIA BR: http://cnpq.br/apresentacao-mulher-e-ciencia

JOVENS PESQUISADORAS: http://cnpq.br/jovens-pesquisadoras

PIONEIRAS NA CIÊNCIA NO BRASIL: http://cnpq.br/pioneiras-da-ciencia-do-brasil

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