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Em função dos 40 anos de articulação do Movimento LGBT+ organizado no Brasil, a Coordenação de Extensão Universitária produziu uma série com 4 textos trazendo elementos importantes que interferem e constroem esse movimento de luta tão importante no nosso país. Reconhecendo a Extensão Popular como prioritária na construção das extensões no país, nada mais importante que movimentos articulados e organizados para construir essa via de mão dupla universidade-comunidade! LGBT+ é organização e resistência! Pela vida das trabalhadoras LGBT+

QUANTO CU$TA A CIDADANIA?: PINK MONEY EM QUESTÃO

Com a notoriedade que os movimentos feministas, negro e LGBT+ ganharam na década de 70, grandes marcas e corporações foram, em pequenos passos, mercantilizando e transformando em objetos de consumo grande parte das pautas que tais movimentos reivindicavam. Nesse processo nasce o ‘pink money’ ou ‘capitalismo rosa’ ou, ainda, o ‘mercado cor-de-rosa’, com uma ampla gama de mercadorias e serviços voltados para o público LGBT+. Um mercado ‘sem discriminação’, ‘para todos’ e ‘inovador’.

Inicialmente, o mercado LGBT+ que surge na década de 80 tem o foco de lucrar em torno das redes homoeróticas já consolidadas no âmbito da vida privada. A partir disso, criam-se saunas destinadas a gays, boates de strip, casas de swing LGBT+, enfim, locais de pegação e paqueras privados. Alegando que, com a notoriedade que ganhou o público LGBT+, é importante que tenham espaços seguros, ratificando a ideia de que espaços públicos não são seguros.

O final da década de 90 foi o apogeu da criação de amplo mercado que atendesse às ‘novas’ categorias sexuais e gênero. Um estudo publicado nos EUA no mesmo período, denominado “Gay and Lesbian Market Study”, trouxe a relação entre pessoas homossexuais, seus respectivos salários e, ainda, uma hipótese de que essas pessoas estivessem morando juntas – sem o uso da palavra casal, vale ressaltar – com outra pessoa do mesmo sexo e recebendo salários parecidos. O que ficou de resultado é que um um par de homens brancos constituindo um lar seria constituinte de um núcleo rico financeiramente, e, por consequência, dignos de respeito.

A partir de então, a indústria de novos empreendedores intensificou suas ideias para satisfazer um público ímpar, nunca pensado antes no mercado mundial: um par de homens brancos ricos. Com a legitimidade de um estudo científico e uma conclusão lucrativa, surge um termo novo nas feiras de empreendimentos mundiais: o ‘DINK’, abreviação para “Double Income, No Kids”, que em tradução literal significa ‘duas rendas, sem filhos’. Tal termo surge de uma tentativa direta de negar a legitimidade dos pares homossexuais, trazendo a infertilidade para justificar essa negação. E, ainda, traz o objetivo principal do uso: mercantilizar.

Ao longo do ano são movimentados 3 trilhões de dólares com serviços voltados ao público LGBT+. De turismo à casa própria, LGBTs do mundo inteiro dão sua parte nessa quantia, acessando o visionário “queer market”. O Brasil, corrobora com sua quantia de 75 milhões de dólares por ano, estando entre os quatro países que mais oferecem serviços a tal público e o líder na América Latina. Quase 100% desses serviços são oferecidos pelo setor privado e são, em média, 30% mais caros que os mesmos serviços para o público comum.

No processo de crescimento do mercado cor-de-rosa, uma das vantagens ditas por empresários é que o mercado mundial vai visar abraçar a comunidade LGBT. Porém, uma pesquisa feita pela Elancers, empresa de sistemas de recrutamento e seleção norte-americana, com 10 mil empresas do mundo todo, mostra que 1 em cada 5 empresas não contrataria uma pessoa LGBT+ para determinados cargos, sobretudo sendo travesti e transgênero. No Brasil, por exemplo, mais de 61% das pessoas não podem/não têm coragem de se assumir para seu ‘superior’ por risco de perder seu emprego, e a maioria dessas pessoas estão inseridas em atividades como o telemarketing, em empresas que saúdam no dia mundial do orgulho LGBT.

Um processo importante na constituição do capital contemporâneo na apropriação das pautas das minorias é a criação de um padrão específico a ser ‘bonificado’ pela “libertação consumista”. Nesse contexto, viu-se um visionarismo empresarial em um tipo de gay, padrão – branco, de classe média, cisheteronormativo -, apto a constituir um DINK e que mantenha sua expressão sexual no âmbito privado. Sendo impossível, assim, diferenciá-lo socialmente dos legítimos, que carregam toda essa expressão e são cishéteros. Assim, surge um modelo de cidadão-consumidor LGBT+.

Todos os outros “ilegítimos”, que não se encaixam na descrição padrão do cidadão-consumidor, porém, foram submetidos a medidas criminalizadoras, empregos superexplorados e subnotificação. Isto é, na mesma medida que o mercado internacional implanta dispositivos ‘gayfriendly’, também segue no fluxo direto na liderança de ser o que mais mata gays, lésbicas, travestis, transsexuais no mundo inteiro, ultrapassando países onde a homossexualidade é institucionalmente um crime. E, obviamente, o padrão desses corpos assassinados tem cor, gênero e local social específicos.

Essa LGBTfobia, quando cruzada com a formação histórica do nosso país e com a posição de país periferizado que a ordem mundial nos põe, se instaura de maneira complexa nos nossos corpos dissidentes e ilegítimos. Impactos da reforma da previdência, da reforma trabalhista e do desmonte do SUS, por exemplo, nos dizima de forma direta.

Em termos mais nacionais: tendemos à crescente aceitação do gay rico e à contínua e exorbitante marginalização da bicha, da travesti e da sapatão pobres. Estes continuarão criminalizados, fixados nas atividades mais exploradoras e subnotificados.

Como falar de ‘libertação pelo consumo’ em uma sociedade que quer nos ver exploradas, trabalhando em condições precárias? E que só quando a gente fica caladinha e performa o auge da cis-heteronormatividade, consegue emprego?

Será que o sangue que escorre das manas do pistão cobre o rosa da moeda que recebe?

 

 

REFERÊNCIAS:

PARKER, R. Abaixo do equador: culturas do desejo, homossexualidade masculina e comunidade gay no brasil. Rio de Janeiro: Record, 2002.

TREVISAN, J.S. Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. 40 ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.

D’EMILIO, J. Capitalism and gay identity.

BUTLER, J. O parentesco é sempre tido como heterossexual?. A Journal of Feminist Cultural Studies (13)1, 2002, pp.14-44. [Tradução: Valter Arcanjo da Ponte]

LESSA, S. Abaixo a família monogâmica. São Paulo: Instituto Lukács, 2012.

O poder do pink money.

1 em cada 5 empresas não contrataria homossexuais, diz estudo.

61% dos LGBT do país escondem sua orientação no trabalho.

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