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Por Que Ainda Morre Gente Com Chuva? – Chuva, Desenvolvimento e Racismo Ambiental No ratings yet.

São Paulo está entre as 10 cidades com o maior número de bilionários do mundo, com o décimo maior PIB do planeta, circulando mais de 500 bilhões de reais em bens e serviços por ano. Quando se trata da região metropolitana, esse valor ultrapassa os 600 bilhões.

Nessa segunda, ao menos 12 pessoas morreram porque choveu em São Paulo.

Num raio de poucos quilômetros da avenida que é o cartão postal paulistano, barracos e moradias em situação irregular foram destruídos por uma forte chuva. Ruas, avenidas e diversos pontos da cidade ficaram alagadas, ilhando famílias sobre o telhado de suas casas.

Como uma mesma cidade responsável pela movimentação de centenas de bilhões de reais por ano ainda tem gente que morre por causa de chuva?

A forma como um povo habita o espaço geográfico é reflexo direto da organização social do seu tempo. No Brasil, o processo de industrialização na primeira metade do século XX e seu consequente êxodo rural resultou na formação das favelas e periferias nos grandes centros urbanos. Sem a casa própria e com aluguéis caros próximos aos locais de trabalho, restam ao trabalhador duas alternativas: morar em regiões extremamente distantes de onde trabalham ou morar de forma irregular em locais intermediários. Assim, o ambiente urbano, crescendo de forma não planejada e sem amparo do Estado, passa a ter casas e habitações em locais sem estrutura adequada, como saneamento básico, água encanada ou, pior, em locais com risco de desabamento.

A reserva de imóveis vazios, esperando pelo aumento do seu valor, também tem papel central nessa realidade. Essa prática, chamada de especulação imobiliária, trata o imóvel – um prédio, um terreno ou uma casa – como um investimento, ignorando seu papel social. Muitas vezes os proprietários desses imóveis são, também, donos de empresas que influenciam diretamente na política municipal, como sobre onde serão abertas estações de metrôs ou quais vias passarão por reformas que valorizarão a região.

A inequidade do acesso à cidade e à moradia e suas consequências não são características exclusivas de São Paulo. O Rio de Janeiro sofre hoje com um quadro alarmente de incidência de turberculose em suas favelas. Recife tem o maior número de crianças com microcefalia após o surto de Zika de 2015. Em Manaus, um incêndio em 2018 atingiu cerca de 700 casas no bairro do Educando, sendo a maioria de palafitas (casas de madeira construídas no leito de rios ou igarapés), causando grandes perdas aos moradores. Outro incêndio destruiu dezenas de casas de madeira no bairro de Canudos, no mês passado, em Belém.

Apesar de parecerem problemas distintos, todos trazem em comum a relação com como se organiza a produção e a moradia nos grandes centros urbanos.

Outro ponto comum são as vítimas: principalmente pessoas negras e pobres.

O extermínio da população negra tem como sua maior arma a política de guerra às drogas, estratégia proibicionista que há décadas mostra-se ineficaz no combate ao tráfico na América Latina. Mas não se encerra nisso: mortes por questões de saúde pública, epidemias e tragédias “naturais” também têm como principais vítimas o povo negro.

A essa realidade se dá o nome de racismo ambiental: as inequidades do espaço urbano e rural resultam em uma conformação em que poluentes, patologias ou situações de risco atingem de forma específica populações marginalziadas.

Pensar a forma como produzimos, o modelo de desenvolvimento e a forma como ocupamos os espaços urbano e rural é fundamental para entender as diferentes formas de nascer, viver e morrer do nosso povo.

“Há dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países especializam-se em ganhar, e outro em que se especializaram em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se lançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta.”

Eduardo Galeano – As veias abertas da América Latina

 

Leia mais sobre racismo ambiental:

Da escravização da população negra ao racismo ambiental

Racismo ambiental: derivação de um problema histórico

Leia mais sobre a questão da moradia:

Por que ocupamos? Uma introdução à luta dos sem-teto

Leia a cartilha da DENEM sobre Determinação Social do Processo Saúde-Doença

Leia o dossiê da DENEM sobre Saúde da População Negra

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