Pandemia COVID-19 Saúde Mental

Saúde Mental na Pandemia de COVID-19 – Parte 2 No ratings yet.

Ao se debater saúde mental de uma comunidade, sem dúvidas, é importante posicioná-la no tempo e espaço. O processo saúde-adoecimento como um todo é influenciado pelos diferentes contextos histórico-culturais. Diante disso, é possível compreender como as grandes crises são determinantes ao psicológico dos indivíduos. De acordo com o Guia de Intervenção Humanitária mhGAP, “O luto e o sofrimento agudo afetam a maioria das pessoas e são considerados respostas psicológicas transitórias e naturais à adversidade extrema. Entretanto, em uma minoria da população, a adversidade extrema desencadeia problemas de saúde mental como transtorno depressivo, transtorno de estresse pós-traumático ou transtorno de luto prolongado — todos capazes de prejudicar seriamente o funcionamento diário”.

A COVID não se trata da primeira pandemia do planeta Terra, mas seu momento de aparição possui especificidades que devem ser ressaltadas. Em primeiro lugar, o mundo globalizado, com intenso fluxo de pessoas, mercadorias e informações pelos países. Este panorama permite que uma epidemia rapidamente se espalhe pelo globo. Isso de forma ainda mais intensa do que a antiga H1N1 devido ao fato da infecção por coronavírus possuir maioria de casos assintomáticos ou de sintomas leves, e rápida velocidade de propagação. Apresenta-se, então, uma crescente exponencial de casos contaminados e mortes, dados que por si só podem ser assustadores e, desse modo, devem ser acompanhados com moderação, via fontes fidedignas, como defende a OMS.

Em segundo lugar, é de importância refletir sobre alguns traços de personalidade da modernidade. Sem dúvidas, o desejo do ser humano por entendimento do mundo à sua volta é milenar. Na atualidade, entretanto, percebe-se que o acesso a ferramentas avançadas de investigação e pesquisa dissemina a sensação da capacidade humana de conhecimento universal, de controle da natureza e de previsão do futuro. Diante disso, lidar com a incerteza, com o desconhecido, com a falta de perspectiva e com a vulnerabilidade, propostos com essa nova pandemia, de difícil controle e sem perspectiva exata de superação, há de ser ansiogênico.

Ademais, deve-se ressaltar um dos principais traços da pandemia atual: a medida de isolamento social. De fato, o isolamento por si só acarreta prejuízos à saúde mental dos indivíduos à medida em que, assim como debatido na 1ª Parte da Nota, o ser humano se constrói à partir da vivência em sociedade; o “eu” depende do “outro”, assim como o inverso. Entretanto, para além disso, nota-se que o mal estar relacionado ao isolamento possui como outro alicerce a incapacidade de se estar consigo mesmo e a urgência por produtividade. Em uma sociedade capitalista, é sintomático o descolamento do indivíduo com o trabalho, com a sociedade e consigo mesmo. Diante de jornadas de trabalho exaustivas e alienadoras, e da necessidade de preenchimento do tempo intermediário com outras atividades perante à lógica produtivista, o período destinado à reflexão é precário. Assim, o ser se aprofunda em um estado de perda da razão social e prejudicada autoconsciência.

Nesse contexto, em diversas manifestações da cultura popular, é possível identificar a associação do adoecimento mental à forma como nossa sociedade está estruturada. Um exemplo audível disso está na música “Lucro”, do grupo “Baiana System”. Em seu refrão, a canção diz: “lucro, máquina de louco, você pra mim é lucro, máquina de louco”. De forma criativa e sonora, lançando mão da licença poética para o uso da palavra “louco” – enquanto termo pejorativo que se refere a indivíduos que sofrem por transtornos mentais, como depressão, ansiedade e pânico -, o grupo ilustra de forma didática muito do que expusemos em nossa última publicação sobre saúde mental na Covid-19, acerca da relação entre saúde mental e a sociedade em que vivemos. A música, porém, vai mais além: indica que a busca pelo lucro, marca maior do modo de produção capitalista, perpassando por questões como a “especulação imobiliária” e o “petróleo em alto mar”, enquanto um processo de mercantilização da vida e de exploração da população, é essencialmente adoecedor – uma máquina de loucos!

No âmbito acadêmico, embora a determinação social do adoecimento pareça abstrata em um primeiro momento, questões materiais de nosso próprio meio universitário podem fornecer muitas reflexões sobre diversos fatores estressores que agravam o sofrimento mental em meio a essa pandemia. A universidade, enquanto uma instituição imersa na sociedade capitalista, também reproduz em si as mesmas contradições presentes nesta, discutidas no texto anterior. Desde sua origem, na América Latina e no Brasil, a universidade tem sido um espaço majoritariamente elitizado, com séria dívida histórica quanto a sua função social em gerar conhecimentos e suprir as demandas da população nas diversas esferas da vida: saúde, educação, cultura etc. Não por acaso, esse espaço é estruturado, por meio de seu currículo formal e do currículo oculto, de forma a perpetuar os valores liberais da sociedade capitalista, tais como a produtividade, a competitividade, o individualismo e a “meritocracia”.

Nesse sentido, são comuns as cobranças constantes por alto desempenho acadêmico, medidos por meio de coeficientes de rendimento, os quais se baseiam em avaliações, geralmente somativas e punitivistas, que avaliam o esforço individual de cada um – e desconsidera as condições estruturais que limitam os esforços de uns e auxiliam os esforços de outros – e não as condições de ensino a que os estudantes estão submetidos, extremamente precarizadas. O ensino já não é prioridade nas universidades públicas, ficando à revelia da pesquisa na prioridade dada pelos docentes. Soma-se a isso o contexto de desinvestimento nas IES públicas, ainda mais evidente no último governo, levando à sobrecarga por falta de contratação de docentes e servidores técnico-administrativos, sucateando o ensino e abrindo brecha para o discurso privatista. Nas universidades pagas, essa precarização se dá pela contenção de gastos na busca incessante por lucros pelos mantenedores, muitas vezes por meio da adoção de matrizes de EaD.

Na pesquisa, pilar fundamental da universidade, os estudantes são sufocados por demandas constantes de publicação de artigos em periódicos, principalmente internacionais, tendo como meios para isso condições precárias para desenvolvimento das pesquisas, em vista de uma infraestrutura universitária em constante desmonte, dificuldade de acesso aos editais de bolsas, baseados em critérios puramente “meritocráticos”, cobrando altíssimos desempenhos acadêmicos a despeito das adversidades encontradas por boa parte dos estudantes frente à precarização do ensino superior, tanto público quanto privado. Fato é que essas bolsas cumprem o papel de remuneração básica de quantidade gigantesca de graduandos e pós-graduandos no Brasil.

Assim, a dificuldade para seu acesso e, principalmente, os massivos cortes orçamentários, recentemente sofridos pelo CNPq e pela Capes em plena pandemia da Covid-19, colocam em xeque as condições de subsistência desses estudantes e pesquisadores, configurando importante angústia.

Nos últimos anos, observamos o aumento do ingresso de estudantes de baixa renda, os filhos da classe trabalhadora, na universidade. Esse processo, todavia, não foi acompanhado de implementação adequada de políticas de permanência estudantil. Assim, tanto nas universidades públicas quanto, principalmente, nas universidades privadas, inúmeros estudantes precisam lidar com a angústia constante frente à falta de auxílios, de acesso à moradia estudantil, de creches para estudantes com filhos, de suporte psicopedagógico adequado, de restaurantes universitários e de transporte. Até quando poderão se manter no curso tão almejado? Conseguirão se formar?

Na quarentena, todas essas preocupações se exacerbam frente às incertezas inerentes ao momento: o atraso da formatura e a permanência adicional na universidade, gerando mais gastos, agravados pelo comprometimento da renda de familiares, sejam eles trabalhadores formais ou informais, os quais contam com cada vez menos direitos trabalhistas e previdenciários e que, durante a pandemia, podem ter sido demitidos ou estão impossibilitados de trabalhar pela quarentena. Somado a isso, a implementação de atividades em EaD pelas IES, com inúmeras vídeoaulas, materiais de leitura, juntamente à torrente de informações/notícias sobre a Covid-19 e avaliações valendo nota desconsidera as importantes limitações que boa parte dos estudantes apresentam em termos de acesso à internet, equipamentos de informática (notebooks, tablets, etc.), adoecimento individual ou de entes queridos pela Covid-19 – o qual, por si só, já causa grande sofrimento por não se poder prever o desfecho, nem mesmo se despedir, caso evolua para a letalidade. Todas essas questões materiais, de uma forma ou de outra, impactam severamente na saúde mental, gerando ansiedade, culpa, depressão e tantas outras formas de sofrimento mental.

Diante disso, é imprescindível entender que essas questões não ocorrem por acaso, mas sim porque o ataque às políticas de financiamento servem a interesses privados. Assim, o intenso processo de mercantilização da educação é fruto de uma política neoliberal com vistas ao lucro dos grandes conglomerados da educação, como a Kroton-Anhanguera, trazendo consigo o sucateamento da universidade pública, manifestada na precarização de seu ensino, políticas de permanência irrisórias para os estudantes, falta de contratação de docentes e servidores, falta de recursos para infraestrutura física, fechamento de cursos, etc. Ademais, é importante para os países do centro do capitalismo – como França, EUA, Inglaterra, Alemanha – que os países da periferia, como o Brasil, sigam com uma matriz econômica agroexportadora, fornecendo produtos primários, pesquisas de base e mão-de-obra barata para suas empresas, e dependendo de patentes e tecnologias dessas nações.

Os trabalhadores brasileiros, que se sujeitam às condições precarizadas de trabalho, sejam eles formais ou informais, mantendo-se operantes mesmo durante a quarentena, frequentando locais de aglomeração para uso de transporte público, para que consigam remuneração mínima, para alimentação ou pagar seus aluguéis, não o fazem por acaso. Diante de um processo de crise do capitalismo, tendo seu epicentro na crise imobiliária dos EUA em meados de 2008, os trabalhadores vêm sofrendo um processo de perda catastrófica de direitos e de aumento de sua exploração, em busca de taxas maiores de lucro.

No Brasil, essas questões tem se manifestado na perda de direitos sociais pelas contrarreformas trabalhista (governo Temer) e previdenciária (governo Bolsonaro), extinção do ministério do Trabalho, aceleração do processo de desmonte do SUS e outras questões discutidas acima.

Por tudo isso, chegamos à conclusão que já destacamos na primeira parte dessa nota: que nossa saúde mental, mesmo que entremeada de diversos aspectos subjetivos e individuais, é determinada socialmente por questões materiais do meio em que vivemos, estudamos, trabalhamos e produzimos. Dessa forma, em momentos de forte tensão como esta pandemia da Covid-19, é importante que nós, enquanto indivíduos, encontremos formas de aliviar nosso sofrimento, por meio de práticas integrativas ou complementares, possíveis de se acessar de forma gratuita e à distância. Contudo, é preciso ter em mente que o enfrentamento efetivo do adoecimento mental – não apenas em tempos de pandemia – somente pode ocorrer de forma coletiva e organizada, na superação das condições adoecedoras.

A articulação pode iniciar-se em nossos centros/diretórios acadêmicos, na DENEM, coletivos e tantas outras organizações políticas, seja na luta por uma Universidade Popular – estatal, plenamente financiada, com garantia de acesso e de condições dignas de permanência, articulação entre ensino, pesquisa e extensão, se pautando pelas reais necessidades da população – e contra a mercantilização da educação, seja na defesa de um sistema de saúde, inteiramente público, de acesso universal e de plena qualidade.

 

“A minha alucinação

É suportar o dia-a-dia

E meu delírio É a experiência Com coisas reais..

Amar e mudar as coisas

Me interessa mais”

Belchior – Alucinação

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